
A dualidade é um jogo sedutor para artistas em geral,
especialmente aqueles cuja “especialidade” é abordar temas que esbarram nas
regras de conduta aceitas em geral.
Por isso freqüentemente o artista com uma tendência
irresistível a ser politicamente incorreto opta pelo humor.
A figura do Palhaço vem do bêbado, daí o nariz vermelho. O
humorista, nas raras ocasiões em que é cobrado por suas posições, costuma se
defender dizendo “é brincadeira”.
É brincadeira, mas é sério, mas é brincadeira, mas é sério.
Me parece que toda forma de sociedade é repressora, claro
que algumas mais outras menos. Aqui no Brasil temos o clássico exemplo do
período da repressão. Os filhos da puta certamente me matariam depois de uma
longa sessão de tortura por chamá-los de filhos da puta, se ainda tivessem
poder pra isso. Então é comum que em períodos assim, só os humoristas, mestres
da dubiedade, sejam capazes de dizer “umas verdades”. O bufão é uma caricatura
do Rei, que é estúpido o suficiente para rir.
Se voltarmos um pouco a pensar nos dias de hoje, veremos que
o humor se pluralizou. A Internet se tornou um veículo onde qualquer um pode se
espressar – que bom! – mas isso, por outro lado, também deu a qualquer maluco a
liberdade de se expressar. O “riso de satã”, diria Baudelaire, que
aparentemente era intrigado por essa questão e se tornou um dos pouquíssimos
“teóricos do humor”.
Na Internet percebemos categorias de humoristas. Vou listar
algumas que me vem à mente no momento em que escrevo:
- Os Trolls: essa estranha recapitulação mitológica traz a
figura de pequenos espíritos brincalhões da mitologia germânica (como percebida
pela cultura Anglo-Saxônica). Os Trolls são espíritos levianos, inconseqüentes,
próximos do nosso Saci.
São os poltergeisten digitais: ao comentar vídeos no
Youtube, serão racistas, sexistas, sectaristas, nazistas – tudo para não perder
uma boa piada. Exemplo: um daqueles vídeos de crianças asiáticas fazendo
espantosamente bem alguma coisa que poucos adultos conseguem normalmente vem
acompanhado de um comentário “TINHA QUE SER ASIÁTICO”.
(Não confundir com “Haters” – procure no Google. Um sujeito
pode ser troll e hater ao mesmo tempo)
- Os Elitistas: muito comuns em economias emergentes como a
nossa. São aqueles que postam, por exemplo, uma fotografia de mulheres gordas,
negras e num ambiente urbano periférico acompanhadas de alguma frase do tipo
“CULPA DAS CASAS BAHIA” (e ainda se preocupam em “explicar a piada” para seus
companheiros de casta superior: “QUE PARCELA CÂMERA DIGITAL EM TROCENTAS
VEZES”)
- Politizados: Só fazem ou consomem humor condizente com
suas convicções políticas, sejam elas de esquerda, direita, traseira ou caralho
a quatro. Estes são um grupo problemático até para ser definido, já que a
variedade de posicionamentos sócio-políticos é imensa. Mas algo que eles
parecem ter em comum é a “seriedade”, como se isso não fosse uma piada por si
só. Seu humor é normalmente corajoso, provocativo, ofensivo para a corrente de
pensamento oposta. Muitos não medem conseqüências. Mesmo aqueles situados “à
direita” não medem as palavras, não se preocupam se o que dizem vai chocar,
ofender, por que normalmente o objetivo é esse mesmo. Humor como arma de
guerra. Ou de guerrilha.
Lembrei de uma da página no Facebook da banda UDR, de Minas
Gerais: “CHOVE ABORTOS EM BRASILHA VITORIA DA UDR SOBRE O CRISTO FODAM-SE OS
FETOS VIVA A VULVA!”.
Se isso aí em cima piada ou não, não importa para o presente
artigo, embora em saiba que tem gente aí rindo, tem gente chocada.
Já vi gente na Internet que condena o Rafinha Bastos pela
sua piada estúpida sobre o feto de Wanessa Camargo, mas é a favor do aborto e
faz todo tipo de piada anti-católica por causa disso. (Isso aí me lembrou
daquela do Maluf: “Tá com desejo sexual estupra, mas não mata”. Se bem que esse
exemplo acima ta mais pra “Mata o feto, mas não estupra” - isso não foi uma
piada -)
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Bem, se até agora falei sobre a Internet, é por que quis
demonstrar um pouco dessa dualidade do humor, que existe desde que existe o
humor.
Eu já mencionei, por algum motivo, mais de uma vez aqui
neste blog a tendência de Shakespeare de incluir em seus textos personagens
cômicos que pareciam servir como válvulas de escape para abordar assuntos que
os personagens “sérios” não poderiam. Estes são freqüentemente bêbados ou
cômicos profissionais, como palhaços e bufões (Trínculo, em “A Tempestade”
protagoniza uma cena em que ele, um bufão, está bêbado – cômico ao quadrado).

Mas e quanto aos humoristas profissionais?
Será que Sacha Baron Cohen como Borat seria tão engraçado
para nós brasileiros se o personagem fosse brasileiro?
Cohen, por sinal, é uma figura de humor altamente discutível
exatamente por causa disso: a dualidade levada ao extremo.
Eu mesmo considero que Borat tem um aspecto genial, de fazer
com que uma determinada sociedade demonstre seus preconceitos em frente às
câmeras, por que está a frente de algo com o qual não consegue lidar – Borat é
o estereótipo do estrangeiro, o bárbaro, sujo e hediondo estrangeiro tão temido
pelas “nações prósperas”. Por outro lado, suas piadas também podem ser ridas da
seguinte maneira: “hahaha é exatamente isso, esses russos sujos!”. Cohen é
inescrupulosamente genial.
O humor brasileiro é historicamente fecundo nesse aspecto.
Macunaíma, o miscigenado que foi cagado pode ser entendido de diversas
maneiras.
RESPONDA RÁPIDO: Dercy Gonçalves provocava risos por que era uma piadista
talentosa ou por que era uma velha
macaca de circo falando palavrão? – Resposta: os dois. tem gente que acha graça
por um lado, tem gente que acha graça por outro. Eu descobri recentemente
descobri que Dercy é de fato talentosa, e só posso te dar minha palavra de
honra que não digo isso pra parecer politicamente correto.
Tenho desprezo pelo politicamente correto. Do jeito que anda
a paranóia, num futuro próximo posso ser cobrado disso.
Nem todo padre é pedófilo assim como nem toda loira é burra.
Vai procurar saber sobre a censura na literatura que está
rondando as escolas.“Clarice Lispector e Guimarães escreviam errado. Não pode”.
Cansei de escrever aqui por hoje. Vou mandar agora uma piada
só pra relaxar:
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